sexta-feira, 10 de abril de 2009

Um Assunto Delicado

Ouvindo a história de uma amiga que não encontrava há tempos, fiquei intrigado com esse mistério.
Ela viveu durante quinze anos com o homem, que no inicio ela achava ser o dos seus sonhos. No começo como sempre, muito educado, de uma postura ímpar, a deixava de queixo caído com suas atitudes cavalheirescas e sua maneira especial de deixá-la se sentindo especial.
O primeiro ano de casamento foi uma tranquilidade temerosa e amedrontadora, ela disse que sentia tanta paz, eles não brigavam, não havia mal-estar entre os dois, enfim uma relação perfeita. O temor que assolava seu coração era que isso um dia poderia acabar. Como de fato ocorreu.
Depois de dois anos e meio de casados, ele iniciou as suas mudanças. Ficara mais agressivo, irritado o tempo todo. Não a tratava mais com tanto carinho, não a procurava mais como mulher da mesma maneira como fazia antes. Isso a deixou preocupada. Um dia, conversando com sua mãe, queria que ela a ajudasse, a mãe achou melhor que ela conversasse com ele sobre o assunto.
Preparou um jantar, arrumou-se da maneira como ele gostava. Aguardou a sua chegada. Como sempre estava frio e indiferente. Jantou pouco nem percebera que ela havia feito o prato que ele mais gostava. Assim mesmo ela decidiu tocar no assunto.
Ele se portou de maneira irritada, dizendo a ela que se ela não fosse daquele jeito tão insuportável, isso tudo não estaria acontecendo, que ela parasse de atormentá-lo com assuntos tão frívolos, porque ele tinha mais com o que se preocupar.
Ela se sentiu culpada e achou mesmo que o erro do relacionamento não andar direito era por causa dela. Então resolveu mudar. Foi procurar trabalho, para ter ocupação e parar de de preocupar com essa situação.
Começou a trabalhar numa escola como supervisora. Passava os dias a encher a mente com mil afazeres para não pensar na falência do seu casamento. Mas não adiantou muito. Tarso de homem compreensivo passou a reclamar da ausência dela em casa, da falta de cuidado com a casa, mesmo tendo uma faxineira que ia três vezes por semana.
Um dia ele chegou em casa bastante alterado. Parecia outra pessoa. Gritou com ela, xingou todas as gerações de sua família, usou palavras de baixo calão. Ela chateada ainda foi obrigada a fazer-lhe os agrados íntimos que todo homem gosta.
Daí para frente ele só a tratava assim. Ele a humilhava e a usava como uma escrava sexual, pedindo que ela fizesse coisas para as quais não estava preparada. Um dia ela se recusou terminantemente a fazer determinada coisa, ele se irritou e partiu para a agressão física. Não esperando por esta reação dele, ela se sentiu acuada e não o impediu.
No dia seguinte estava cheia de hematomas por todo o corpo e sentindo muita dor. O rosto estava bem inchado do lado direito. Ligou na escola disse que estava indisposta, morreria de vergonha se alguém a visse assim.
O tempo foi passando e a situação piorando. Ela disse a ele para parar com aquilo pois estava ficando difícil ir trabalhar daquele jeito, principalmente com o rosto marcado. Ele disse a ela que era o que ela merecia por não conseguir satisfazê-lo ou fazê-lo feliz. Mas que ele ia parar com aquilo. Realmente ele parou de bater no rosto dela e passou a bater nas costas com a toalha molhada, não deixa marcas.
Um dia ela escutou uma colega de trabalho falando sobre sua vida, que havia se separado do marido porque não aguentava mais apanhar. Que tivera que mudar de cidade com os filhos menores, porque ele jurou quando saísse da cadeia ia atrás dela para matá-la. Mas por sorte ou pela mão do destino ele se envolveu numa briga dentro da cadeia e morreu esfaqueado. Ela havia denunciado o marido várias vezes e nada havia acontecido com ele. As vezes ela ficava com dó e retirava a queixa. Claro que isso aconteceu antes da lei Maria da Penha, depois disso a última denúncia que ela fez ele nãopode sair mais.
Dália ouviu calada. Pensando em sua vida, de como Tarso havia mudado e a violência que sofria. Voltou de seus pensamentos com a seguinte frase sendo dita: " a violência doméstica tem que ser denunciada." O dia seguiu com ela remoendo essas palavras em sua mente. Mas como faria isso? Ela morreria de vergonha das pessoas saberem que ela passava por esse tipo de situação. Meu Deus o que fazer!?
Foi até a mãe contar-lhe a situação. Ela disse para Dália não ser tão precipitada que homem agia assim mesmo, pois ela lembrava do pai quando ele chegava bêbado e batia na mãe . " Vê hoje, taí inválido e quem tem que cuidar dele sou eu, minha maior vingança ele precisa de mim."
Estupefata Dália voltou para casa sem saber o que fazer. Decidiu conversar com Alessandra, a colega que havia denunciado o marido.
Alessandra a alertou que seria difícil, pois a codependência emocional que as mulheres que sofrem violência têm dos maridos agressores, não permite que cheguem a esse ponto, principalmente se ele pede perdão e promete que não vai mais fazer isso. "Esse foi o meu caso durante anos. Meu marido me espancava, e eu ficava com dó dele. Ele pedia perdão, dizia que não ia fazer mais aquilo, depois fazia de novo ainda pior. A última vez eu fui parar no hospital."
Dália foi para casa esperando que o marido não chegasse cedo. Ultimamente ele estava demorando para chegar e isso ajudava bastante, pelo menos a surras estavam mais esparsas. Mas naquela noite Tarso chegou com o demônio no corpo. Ele entrou na casa gritando. Reclamou do jantar. Disse coisas absurdas. A violentou e depois ainda a espancou até que perdesse os sentidos. Ela ficou desacordada. Teve que ser levada para o hospital.
Acordou dois dias depois, com o rosto bastante inchado, algumas fraturas na costela e braço esquerdo.
O marido havia dito que ela sofrera um acidente caindo da escada. Todos no hospital já sabiam que essa era a história contada por todos os homens do mundo. Esperaram que ela acordasse para que desse a sua versão. Ela não conseguia falar. Preferiu não dar queixa como a mãe que estava junto com ela havia pedido. Afinal um casamento com um homem que tem dinheiro como Tarso é difícil de se arranjar.
Voltou para casa contrariada. A mãe disse que na casa dela não havia possibilidade de ficar porque já havia o pai doente. Dona laila mãe de tarso ficaria com ela enquanto fosse necessário repouso. Foram dias infernais, porque dona laila achava que Dália estava faltando com o seu papel de mulher. Melhor se tivesse morrido a aguentar aquele tipo de coisa.
Alessandra foi visitá-la. Imaginava o que havia ocorrido e ofereceu-lhe sua solidariedade. Sabia o quanto era difícil, esperava que ela tivesse coragem para denunciá-lo, "qualquer coisa que precise me procure, vou deixar meu telefone gravado no seu celular. Às lágrimas Dália agradeceu.
Uma semana depois estava de volta ao trabalho. Tarso chegava tarde em casa e não dormia no mesmo quarto que ela. Isso já era um alívio pelo menos não a molestava mais. Pelo menos naquele momento.
O comportamento dele estava mais estranho que nunca. Mal ficava em casa. Só passava para trocar a roupa, tomar um banho, comer alguma coisa e dormir. Desconfiada ela achou que ele estava tendo um caso.
Foi mexer em suas roupas para ver se achava algum sinal de alguma coisa. Nada. O que estaria acontecendo? Agora ele só a agredia verbalmente, as vezes ameaçava bater, as vezes dava tapas em sua faces. Mas não a espancava mais como antes.
Um dia Dalia achou um bilhete no bolso da calça dele. Desesperada comentou com Alessandra. Ambas acharam que provavelmente ele estava tendo um caso com alguém. Os atrasos de Tarso começaram a ser constantes houve dias em que ele não voltou para casa.
Então Dália tomou coragem, decidiu junto com Alessandra seguirem-no após o trabalho.
Com muito cuidado fizeram isso. E descobriram uma coisa que Dália jamais poderia imaginar estar acontecendo.
Viu tarso entrar numa boate gay. Esperaram mais ou menos duas horas, ele saiu de lá acompanhado de um rapaz. Dália o viu fazer carinho no rapaz. Sentiu um aperto no coração, como se uma faca tivesse lhe atravessado o peito. Seguiram o carro e eles foram para um motel. As lágrimas escorriam por seu rosto. Estava se sentindo nauseada. Foi para casa. Tomou um calmante e dormiu, assim pensaria melhor no dia seguinte.
Acordou abatida e sem forças, mas mesmo assim foi trabalhar para poder encontrar Alessandra. Decidira pedir a separação. Não podia continuar vivendo com um homem que não gostava de mulher. Alessandra disse a ela que fosse cautelosa, porém decidida não voltaria mais atrás. Procuraram um advogado. Ele a orientou. Agora a tarefa mais difícil. Falar com Tarso.
Esperou que ele chegasse. Ele assustou-se com a figura dela na sala no escuro. Ela disse que achava melhor que eles se separassem, já que não tinham mais uma vida em comum. Ele esbravejou, gritou que era ela o problema, que onde já se viu uma mulher abandonar seu marido e sua casa, etc. Ela disse a ele que o viu com outro homem, que os viu entrar e sair do motel. Que sabia de tudo. Que não contaria a ninguém, em troca e lhe daria a separação alegando incompatibilidade de gênios.
Cegado pelo ódio ele disse a ela: " Você é que não presta. Nem conseguir me fazer sentir homem, não conseguiu. Você é um fracasso como mulher. Pois não despertou em mim o desejo por você. Vagabunda. Você é a desgraça da minha vida, é por sua causa que vou procurar outros homens. Você não conseguiu me mudar. Eu pensei que se me casasse com uma mulher, você, isso mudaria mas você é tão incompetente que nem isso foi capaz de fazer. Agora quer se separar. Nunca! Eu não te darei o divorcio."
"Você não pode me prender, deixo você livre para viver sua vida da maneira que quiser, não me interessa o que vai fazer, apenas não quero mais fazer parte disso."
Ele avançou sobre ela, acertou alguns golpes, então ela pegou um spray de pimenta que o advogado havia conseguido para ela e borrifou no olho dele. Saiu correndo. Foi para a garagem. Pegou o carro, passou na delegacia deu queixa. Chamou seu advogado, depois foi para um hotel.
Teve que expor o marido pelo que estava fazendo para conseguir a separação. Tarso hoje é casado com outra mulher. Dália nem quer imaginar o que ela deve estar passando.
Mas está feliz porque conseguiu dar a volta por cima. Está casada novamente com um homem de bem, que a trata como ela merece.
Há muitos homens que espancam suas mulheres, porque não assumem a sua homossexualidade. Espancam e destroem sua auto-estima porque jogam sobre elas a responsabilidade pelo fato de serem gays e a sociedade em que vivem não os aceitaria dessa forma. Há muitas mulheres que sofrem essa violência sem saberem da vida dupla do marido. Que se vêem em situação complicada, porém ao invez de resolver-se macula a vida de outra para que não sofra os golpes que a sociedade lhe daria caso fosse um homem suficientemente de carater para assumir a sua opção sexual.
Mas isso não acontece só aqui, também no resto do mundo. O mundo machista e patriarcal cria aberrações emocionais, pessoas que não têm condição emocional de sustentar e se bancar como realmente desejaria estar vivendo. Esconder é o caminho mais fácil, que em verdade se torna o mais difícil.
Creio que seria mais fácil que o homem vivesse a vida que gostaria. Não necessita contar para ninguém o que faz no seu mundo particular. Muito melhor assim do que fazer uma mulher infeliz porque ele é infeliz e incapaz de viver o que realmente deseja. A tormenta é maior. O sentimento de culpa, o desejo de ser o que se quer ser, o sentimento de estar transgredindo uma regra, de estar indo contra princípios religiosos leva as pessoas a cometerem este ato de vandalismo consigo mesmo e com a pessoa a quem escolheu para torturar.
Mude de cidade, vá para um lugar que ninguém te conhece, tome coragem, vá viver sua vida. Não destrua a vida de uma mulher por causa do seu egoísmo e falta de caráter. Seja homem e honre as calças que veste.
Os nomes desta história foram modificados para preservar a identidade das pessoas envolvidas.

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